Um ano Na Estrada: uma história única, que virou múltipla

Um ano Na Estrada: uma história única, que virou múltipla

Antes de ler esta história, aperte o Play: The Climb – Miley Cyrus

Essa história começa com um coração partido, uma tragédia e um milagre.

No início de 2013, vivi um amor que nunca imaginei viver. Eu nunca senti felicidade igual aquela, que causava entorpecimento, dos sentidos, dos motivos, da razão. Uma paixão avassaladora que acabou tão rápido quanto começou, naquele momento, tudo o que eu achava que tinha de mais sólido se desmoronou, minha força, minha vontade, mas encontrei uma rota de fuga que me manteria protegida temporariamente, que me manteria a salvo, das loucuras da minha própria mente. E eu vivi, sofri, chorei, mas levantei a cabeça ao descobrir que ninguém morre de amor, não desse tipo de amor. Então mesmo perdida, eu sobrevivi e comecei o ano seguinte disposta a fazer melhor.

“Você já sentiu tanto a falta de alguém que achou que morreria de saudade?”

Eu me recordo, como se pudesse fechar os olhos e sentir o cheiro do último bolo dela que comi. Ela. Que tinha a voz rouca, fumava muito e adorava café. Ela que me obrigou a gostar de beterraba e me fazia tomar vitamina de abacate ou de banana toda vez, mesmo que eu não quisesse. Ela que me amou tanto ao ponto de me criar e abrir as portas de sua casa para minha família, inúmeras vezes, ela que eu queria dar o mundo, mas não deu tempo. Quando me disseram que minha avó tinha passado mal na rua e tinha ido para o hospital, eu orei por muitas horas seguidas implorando para não ser nada de grave. Ver que minha mãe não conseguia me olhar nos olhos apos visita-la, fez minhas pernas bambearem sem parar e eu sofri, cada segundo e fui covarde, não tive coragem de estar ao lado dela em seus últimos momentos. Eu ficava pensando como tudo tinha acontecido tão rápido e repassando na memória o dia em que a vi pela última vez. Comi o último bolo solado que ela fez, ouvi pela última vez ela dizer para eu me cuidar e não engravidar e continuar estudando e fui para a faculdade, feliz, assistir mais uma aula, com a bolsa cheia de bolo solado, porque “eu amava o bolo dela, mesmo que estivesse solado”, essa foi a última coisa que eu disse a ela e segui, como se fosse um dia qualquer. Dois dias depois dela ter passado mal, eu cheguei da aula exausta, estava sem nenhuma energia e corri pro banho, Eu planejava visitá-la no dia seguinte, finalmente havia criado coragem. Mas não deu tempo, esperei tempo demais, e quando do chuveiro ouvi a porta se abrir com um choro eu fechei os olhos e chorei também. O meu amor se tinha partido e pela primeira vez, eu morri com o meu amor.

Eu perdi o gosto por tudo que eu amava. Pelos livros, por escrever, pela faculdade, pelo trabalho. Não havia mais motivos para sonhar ou sorrir, a culpa me consumia, “como eu pude ser tão displicente e covarde?” Eu não conseguia me perdoar, eu afundei. Afundei num fosso de lama que eu não conseguia levantar, eu não queria. Adoeci, minhas notas caíram e eu bebi tanto quanto pude, para esquecer o monte de lixo em que eu me encontrava, para afogar a culpa e a raiva no poço sem fundo que eu me encontrava.

“Estou a dois passos do paraíso”

Então eu Viajei. Imaginei um mundo onde não existisse as pessoas que eu ainda amava e não consegui suportar. Eu desmoronei, mas conheci um lugar que me fez repensar toda a minha forma de encarar a vida. Estive mais perto de pessoas, estive mais perto da natureza, estive mais perto de mim. E aquela viagem me fez refletir sobre como eu precisei me afastar da minha realidade para finalmente ver a situação que eu me encontrava. Eu estava muito triste quando cheguei num bucólico vilarejo na Região Norte do Rio de Janeiro e saí de lá, com uma luz de esperança, uma centelha de esperança que de alguma forma eu encontraria uma maneira de sobreviver. Os dias foram se passando, mas não passava a vontade de juntar os panos numa mala e sair por aí desbravando a cidade, a sensação de desprendimento que tive ao ficar cinco dias totalmente imersa na calmaria da natureza me modificou. Eu podia estar triste, mas a natureza me trazia paz e quando eu comecei a sentir um desejo incontrolável de escrever sobre aquela experiência eu percebi que algo havia mudado. Eu estava quase pronta. Mas não antes de passar pela última prova de fogo.

“Meu pequeno milagre”

Me senti sozinha a minha vida inteira. Nunca fui uma amiga boa o suficiente, para ser a Melhor. Nunca fui uma namorada para casar. Nunca fui a filha preferida. E por um longo tempo a dor dessa solidão me massacrou, sentia como se uma placa de uma tonelada estivesse sob meu peito, sempre afundando mais e mais e me impedindo de respirar. Eu sempre tentei ser a descolada e não pirar, certos tipos de assuntos não doem tanto se você não remexer neles, mas quando o resultado do exame de gravidez deu positivo, eu sabia que algo muito significativo estava acontecendo e mudando na minha vida, mas eu não fiquei triste e em nenhum momento pensei em desistir. Apesar do medo, da confusão, da solidão, a maternidade me trouxe uma amadurecimento que eu achei que alcançaria apenas com uns 50 anos. Eu virei noites devorando sites para sustentar o meu psicológico até o fim. E eu consegui. Conheci muito mais da minha história e de mim, tive o parto humanizado que quis desde o começo, e chorei muito em dois momentos, quando achei que era a pior mãe do mundo e quando descobri que não era. Apesar de passar grande parte do melhor momento da minha vida sozinha, eu não pirei – por muito pouco, mas não pirei. Não achava justo estar tão triste recebendo uma dádiva dos céus, eu precisava mudar o quadro dessa situação. Foi quando a ideia de voltar a estudar e a escrever – que desde sempre foram a minha paixão – voltou com força total, me dando um soco no estômago. Algo dentro de mim gritava “você precisa voltar”, “você precisa viver”, “a vida é muito curta, viva os dias como se fosse o último e faça aquilo que você ama”. E eu percebi que era hora de voltar a viver. Depois de tentar escrever sobre diversos assuntos, percebi que a Camila de 2014, não era a mesma de 2010, que escrevia resenha de livros, filmes e séries. Era uma Camila muito mais madura, mas que ainda estava se reconhecendo enquanto mãe e mulher, alguém que se sentia tão confusa que não conseguia escrever sobre nada concreto, ou mais profundo, eram um monte de palavras soltas associadas a um momento ou sentimento muito pontual, mas isso não bastava. Naquele momento eu tinha dois desejos: voltar a escrever + turistar mais, por que eu sentia que isso me desafogaria, me resgataria pelo menos por alguns instantes da loucura que é a maternidade solo. E eu voltei daquela viagem, que fiz antes de descobrir que estava grávida, com a ideia fixa de que pelo menos uma vez por ano, eu me permitiria sentir a paz que senti naquele lugar, mesmo achando que não merecia, eu não pensaria, eu só me daria o luxo de sentir aquele entorpecimento mais uma vez. Foi quando juntei o útil ao agradável.

O Na Estrada com as Minas surgiu para mim numa época muito turbulenta. Quando eu tive a ideia, achei que seria só mais um site que eu escreveria algumas coisas importantes, outras nem tanto, mas que não seria nada muito além disso, na verdade eu estava com as estruturas totalmente abaladas e não conseguia enxergar o verdadeiro potencial daquilo que eu estava prestes a construir por que não via potencial em mim mesma, não tinha perspectiva nenhuma. E o medo de “viver esse sonho”, agora que eu tinha alguém totalmente dependente de mim, me deixou paralisada por muito tempo, fui adiando enquanto pude até me sentir verdadeiramente pronta. Mas viver uma vida, uma história, para construir uma história não há preparação, você só se joga e espera que as coisas não saiam tão fora do que você esperava, mas percebe com o tempo que até as coisas “ruins”, tem o seu lado bom. Então com o tempo fui percebendo que o Na Estrada era muito mais do que só um site e muito além do que só a minha história. Todas as vezes que eu ouvi alguém admirado dizer “você é muito corajosa”, “eu não conseguiria viajar com meu filho pequeno, mas tenho muita vontade”, “eu gostaria muito de conhecer o Rio de Janeiro”, essas e outras frases ficaram marcadas e martelando incessantemente na minha cabeça. Então eu decidi colocar finalmente o “pé na estrada”, mas a vida é tão louca que eu achava que embarcaria nessa jornada sozinha e que ao publicar em um site para mulheres que procurava uma amiga para compartilhar histórias e deixaria o convite aberto para todas as mulheres que quisessem falar sobre suas experiências, eu não imaginava que quase 50 mulheres se interessariam tanto, ao ponto de dedicarem suas vidas a esse projeto.

Eu contei toda essa história acima para vocês, para que vocês possam entender que não é só um site, é uma história de vida, é a minha história, que se repete a cada esquina e por isso eu gostaria que vocês conhecessem tudo desde o inicio, principalmente porque não é só a minha história, é a história de cada mulher que passa por muitas provações na vida, outras nem tanto, mas que está resistindo diariamente, superando as expectativas, sobrevivendo, se reconhecendo, em uma sociedade massacrante para nós, mulheres. Estou contando essa história para entenderem que o Projeto Na Estrada com as Minas veio como uma superação, novas amizade, confiança em si mesmo, e como uma fonte de inspiração para seguirmos sempre em frete e darmos o nosso melhor em tudo aquilo que nos dedicamos a fazer, cada fragmento dessa história transformou o Na Estrada no que ele é hoje. Hoje, o Na Estrada é muito mais do que um dia eu sonhei. Eu estou escrevendo isso em prantos, por que me emociona muito cada feedback que nós recebemos, cada pessoa que participa dos nossos eventos, cada crítica construtiva que geralmente vem carregada de muita expectativa de melhoras, de pessoas que acreditam no nosso potencial. O Na Estrada não sou eu, não são só as meninas da Equipe, não são só as Correspondentes. Ele é múltiplo, é rico, é único, porque carrega não uma verdade absoluta, não funciona apenas como um site de consulta. Ele é um espaço acolhedor.

E eu não poderia terminar esse texto sem agradecer as pessoas que diariamente se esforçam incansavelmente para melhorar o Projeto e para construir junto com todas as mulheres uma história fantástica. Quebrando todos os paradigmas dessa sociedade machista, que diz que “não podemos ser amigas”, “não podemos viajar sozinhas”, “não podemos ser felizes”. Obrigada pela confiança e por abraçarem o projeto que se tornou uma das minhas maiores motivações de vida, vocês são fantásticas e eu provavelmente estaria menos feliz sem vocês!

Se tem uma coisa que nós podemos. É PODER!

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Mulheres tão particulares, com um único objetivo em comum, viver as melhores (e maiores) aventuras já vistas. Juntas ou sozinhas, nós queremos é viver! E compartilhar nossas experiências para que possamos inspirar cada vez mais, outras mulheres.



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