RODAR A ESPANHA DE ‘BUSÃO’ SOZINHA? ROLA! – POR MARIANA BISPO

RODAR A ESPANHA DE ‘BUSÃO’ SOZINHA? ROLA! –  POR MARIANA BISPO

Quem acha que só de trem de alta velocidade e avião low cost vive a Espanha está muito enganado. É claro que essas são as opções mais consideradas, no geral, para quem organiza uma viagem ao país do rei Filipe. Porém, ahhh, porém… Tudo depende de quando e de quais cidades você vai visitar por lá.

Ao contrário do que muitos pensam, as linhas de trem de alta velocidade ‘Ave’ não cruzam todo o país. Ficam, praticamente, restritas às ‘cercanias’ das maiores cidades, tais como Madrid , Barcelona e Sevilha . O restante do país, que é enorme, não é tão bem servido assim de trens velozes e furiosos.

E os aviões ‘baratex’? Pois bem, se você pretende circular dentro da Espanha no verão ou mesmo viajar num fim de semana, saiba que não será tão barato assim. Falo isso com conhecimento de causa. Tive a oportunidade de passar mais de 2 meses na Espanha no verão de 2017 e só podia viajar nos fins de semana. Logo, pude ver o quão caro e difícil era andar de trem e avião, ainda mais onde estava, bem ao norte, na região autônoma do Principado de Astúrias. A cidade onde eu ficava, Avilés, é a menor das três mais importantes do Principado (O trio Oviedo, Avilés e Gijón). 

Oviedo é a capital elegante, Avilés a pequena histórica e Gijón a praiana descolada

  Oviedo

AvilésGijón.

Então faz o quê? Andar de ônibus foi a saída que encontrei para cruzar o país ibérico de leste a oeste e depois de norte a sul, sozinha. Vou contar um pouco dessas aventuras neste texto. Mesmo você achando que nunca irá encarar a Espanha de busão um dia, acredito que as experiências que vou compartilhar valem também se você: vai viajar por lá com outras formas de transporte, se vai andar de busão em outro país, ou ainda se vai fazer uma viagem sozinha para ‘somewhere over the rainbow.’

Essa era minha terceira vez na Espanha. Já havia estado em Madrid e Toledo por pouquíssimos dias, em 2014. (Primeira vez em que pisei na Europa e sozinha).

Dessa vez, assim como nas primeiras, não foi nada planejado. A Espanha pairou no meu caminho e eu no dela. Digo que minha ligação com o país é de outras vidas (Para quem acreditar nisso…) Como fui parar lá dessa vez? Estava morando na Irlanda, fazendo intercâmbio e apareceu a oportunidade de ser babá no verão, para cuidar de umas crianças de uma família espanhola, que morava na Irlanda, mas que passaria férias com os avós em Astúrias.

Eu, que já havia acabado meus cursos na Irlanda (papo para outros artigos), decidi que passar o verão europeu na ensolarada Espanha seria bem mais interessante do que na chuvosa Ilha esmeralda.

E por uma questão orçamentária – grana curta mesmo – só me restava andar de busão, caso eu quisesse manter meu objetivo principal de conhecer ao máximo o país ibérico. Com muita pesquisa na Internet e algumas dicas preciosas dos avós das crianças que cuidava, conheci 19 cidades em 7 regiões autônomas, em 2 meses e uma semana de Espanha. Isso viajando só nos ‘findes’.

Uma das principais empresas de ônibus do país é a Alsa. Ela tem uma capilaridade grande, pegando boa parte da Espanha. Isso não quer dizer que vá para todas as cidades, e nem que tenha uma frequência grande de ônibus circulando, mas deu para me virar com ela. Na verdade, virei praticamente sócia da Alsa, pois no principado de Astúrias ela reinava.

Um dos ônibus da Alsa na rodoviária de Oviedo

ônibus da Alsa

Nessa região, a empresa oferece desde ônibus internos, como os que pegava todo dia para ir do centro de Avilés a Salinas, até busão para Sevilha, que fica bem ao sul do país. O melhor: no auge do verão suas viagens no modelo simples de ônibus custavam, em média, ¼ a menos que os aviões. Uauuuu! Descobri isso logo no segundo fim de semana, quando decidi ir a Barcelona e a suposta low cost de avião custava 400 euros. Paguei cento e poucos no ônibus, que era simples, mas confortável.

A Alsa oferece diferentes categorias de ônibus inter-regionais: os mais frequentes são o ‘comum’ e o chamado ‘supra’ (Que era poderosíssimo, confortabilíssimo e bem mais rápido que o comum) porém, como vocês podem imaginar, quase sempre bem mais caro que o ‘primo pobre’. As vezes em que andei de supra foram as que rolaram algumas tarifas promocionais. Vira e mexe tinha uma promoçãozinha, sobretudo para as cidades menos disputadas como destino de veraneio.

Uma das questões que complicava a minha vidinha com a Alsa era que as linhas para várias cidades não saiam de Avilés, mas sim da capital de Astúrias, Oviedo. A capital regional ficava a meia hora de ônibus de Avilés (Ônibus da Alsa rs). Então, quase sempre eu tinha que sair uns 50 min/ 1h antes para chegar em Oviedo a tempo de pegar o bus para o destino da vez. Eu digo que o lugar que mais visitei em toda Europa foi a rodoviária de Oviedo. Fui mais lá na vida até do que na rodoviária Novo Rio no Rio de Janeiro , onde nasci e cresci.

Andar de ônibus em um país como a Espanha tem suas vantagens: você vê cada paisagem maravilhosa e consegue ver também um pouquinho dos centros das cidades, pois muitas das rodoviárias são bem centrais. Por exemplo, vi a catedral de Burgos por fora, considerada uma das mais bonitas do país, só de passar umas quatro vezes pela cidade, sem parar lá.

Principalmente o norte da Espanha, na chamada ‘Ruta del Cantábrico’, é possível ver o que, provavelmente, é uma das estradas mais bonitas da Europa. Boa parte dessa rota se confunde com um dos caminhos de peregrinação a Santiago de Compostela. Inclusive a cidade de Avilés, onde eu ficava, era rota de um dos caminhos. Com isso, puder ver muitos peregrinos e conhecer suas interessantes histórias. Até me inspirei a fazer o caminho um dia…

Santiago de Compostela é a capital da região autônoma de Galícia

Se eu me senti com medo ou ameaçada em algum momento por estar nos ônibus sozinha, algumas vezes de madrugada? Para ser sincera: não! Em nenhum momento me senti ameaçada de passar por alguma situação de assédio ou coisa parecida, e olha que eu até conversava com muita gente, inclusive homens, em especial peregrinos à Compostela. Mas, não estou dizendo que seja super seguro e que não possa vir a acontecer com alguém.

Eu, particularmente, tomava alguns cuidados do tipo: sempre avisava aos avós das crianças e a minha família no Brasil para onde eu iria; reservava hospedagem antes; pesquisava ao máximo sobre a região para onde ia e procurava sempre conversar com gente no ônibus e não me afastar do grupo que eu visualizava como estando no meu busão. Procurava também nunca desgarrar da minha bolsa com documentos, celular e dinheiro. Eu também raramente dormia, isso por que não durmo mesmo em ônibus, mas dá para dormir tranquilamente, para quem consegue essa proeza.

Todos esses cuidados, porém, não me livraram de passar por alguns percalços, alguns muito doidos, outros bem engraçados (Claro, achei graça depois que passou rs). Uma das questões que temos que ter atenção nos ônibus da Alsa é: nem sempre os motoristas falam inglês. Alguns, como o do ônibus a Santiago de Compostela, falavam, mas a maioria deles só fala espanhol e mega rápido. Então, tinha que ficar bem atenta para entendê-los, e olha que eu sei espanhol relativamente bem. Outro problema é nas rodoviárias: algumas não tem sistema de som para avisar que os ônibus estão saindo (A de Oviedo era uma das únicas com este serviço). Alguns motoristas também não se preocupavam com os passageiros nas paradas, etc.

Numa dessas, por uma lerdeza minha, eu perdi um ônibus na última parada antes do meu destino. (Aveee). Estava indo para Barcelona, encarando 12h de estrada de Oviedo até lá. Na última parada antes de entrar na região autônoma da Catalunha, perdi o ônibus na cidade de Zaragoza. Eu ficava bem atenta a tudo, mas por não entender direito o que o motorista informou sobre o tempo de parada, me ferrei. Detalhe: minha mala ficou no ônibus… Socorro! Esse episódio fatídico do busão de Barcelona tem taaanta história e treta, que é papo para outro artigo. Mas ficou a lição aprendida: suspeitou que não entendeu, ou mesmo que você jure que entendeu todo el espanõl (E isso vale para qualquer idioma), pergunte de novo ao descer do ônibus. Não dê uma de Mariana, por favor, e faça um double check do tempo de parada.

No mais, o que tenho a destacar é que consegui, aos trancos e barrancos, conhecer praticamente todas as cidades que havia planejando, e 95% delas de busão, já nas outras 5% fui de trem. Claro que teria sido mais fácil alugar um carro e andar por lá tranquilamente, mas além de não ter a carteira, a gasolina era cara para eu bancar sozinha. Enfim, na falta de outro transporte, fui na fé, fui na Alsa e cheguei e voltei de todos os lugares.

Vai para Espanha? Avalie se o busão não compensa! Pode lhe render economia, belas paisagens e boas histórias (Mas sem perder o ônibus, por favor!)

 

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