Correspondentes

Ni una a menos: precisamos falar sobre violência com mulheres viajantes – Bruna Grybogi

Depois do caso do feminicidio argentino que chocou o mundo, a correspondente Bruna Grybogi veio compartilhar sua história com a gente.

Era 1 junho, eu ainda estava como turista na cidade, quando eu fui agredida à pauladas no Central Park.
Foi numa manhã de quarta-feira. Eu estava indo encontrar uma amiga e acabei descendo na estação errada. Tudo bem, eu podia ir a pé, só demoraria uns minutos a mais e poderia aproveitar pra fazer uma caminhada no parque. Eu tentava ler a placa da próxima rua pra ver se eu estava na direção certa, e ela veio pra cima de mim com uma marreta maior do que eu. Ele e seu olhar o qual nunca mais vou esquecer. Foi tudo tão rápido que eu me lembro de flashes do momento. A madeira foi moída em meu corpo, mais especificamente em meu braço. Ele não disse nada, me agrediu, encarou e continuou andando como se nada tivesse acontecido. Eu fiquei parada e sem reação. Não consegui dizer uma palavra sequer. Os pensamentos ficaram mais rápidos, o coração acelerou, a dor aumentou e o desespero chegou. Eu tive medo. Chorei de dor física e emocional, me senti impotente, sem rumo e sem chão. Por que ele fez isso? Por que eu estava passando no parque nesse momento? O que eu fiz de errado? Eu estava sozinha e nesse momento foi quando eu pensei que nada mais poderia ser feito.
Eu liguei para uma amiga e fui encontrá-lá em seu apartamento. Com insistência dela, aceitei chamar a polícia e ambulância. Me recusei a ir ao hospital, porque a saúde aqui não é para todos. Muitos policiais chegaram e eu realmente não posso reclamar do atendimento que recebi. Eles foram atenciosos e se interessaram por cada detalhe do meu caso.
Recebemos a informação de que haviam mais dois casos de ataques no Central Park. Mesmo homem, horários próximos e mais duas mulheres atacadas. Eu fui à delegacia reconhecer o criminoso. Eu o reconheci pelos olhos. Eu nunca mais irei esquecer aquele olhar.
Ele foi preso e está aguardando a condenação. Por me sentir perdida, procurei alguns advogados. Dois eles me disseram que se esse homem provar ter problemas mentais, ele vai fazer tratamento por uns meses e será solto, justamente porque investir em saúde aqui é caro. É mais fácil manter uma pessoa com problemas mentais na rua do que custear o tratamento. Eu realmente não sei até que ponto isso pode ser realmente verdade, mas sei que enquanto isso o governo só fica adiando o julgamento. Já foram remarcadas 3 datas diferentes, a fiança dele foi diminuída e até agora o caso não foi encerrado.
Eu continuo me sentindo perdida. Ainda sinto medo. Procurei maneiras de me sentir mais segura e passei a andar com objetos os quais eu possa me proteger de possíveis ataques. O governo me encaminhou para fazer psicoterapia. Fui diagnosticada com Transtorno Pós Traumático e minha vida passou a ser uma tentativa de manter a sanidade mental. Eu não sei por quantos anos ele vai ficar preso, mas sei que eu fiquei presa pra sempre na minha mente diante de tudo o que aconteceu. Por mais tratamento que eu faça, eu nunca vou esquecer aquele olhar fulminante.
Diante de toda essa situação aqui, o que mais tem sido importante é o apoio dos amigos. As pessoas que me encorajaram a denunciar, procurar advogados, não desistir da justiça e nem de mim mesma. Eu recebi inúmeros recados de meninas que passaram por situações parecidas ou que simplesmente queriam dar um apoio. E como isso me fez ter vontade de continuar. 

Toda força a Bruna e a todas as mulheres vítimas de violência.
Ni una a menos, mexeu com uma mexeu com todas.

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Na Estrada com as Minas

Mulheres tão particulares, com um único objetivo em comum, viver as melhores (e maiores) aventuras já vistas. Juntas ou sozinhas, nós queremos é viver! E compartilhar nossas experiências para que possamos inspirar cada vez mais, outras mulheres.

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