Ei, Mulher – entrevista com Adriana Rolin

Ei, Mulher – entrevista com Adriana Rolin

Adriana Rolin, se tornou atriz de teatro para viver outras vidas, totaliza 18 anos de experiência ativa. Graduou-se em Comunicação Social, é pós-graduada em Arteterapia e Processos de Criação e é mestranda em Artes. É escritora do livro de poesias Cria Jubal sobre o processo de fecundação, gestação e parto, fruto de um matrimônio afrocentrado do encontro de duas jubas contentes. Adriana entrou para o ramo de Arteterapia em novembro de 2012 através da Rede Caps na área de dependência química onde contabiliza 5 anos de experiência. No ano de 2016 desenvolveu uma pesquisa intitulada de Lapso Falho, Processos de Criação e a Experiência do Sagrado no Teatro da Crueldade na área da Saúde Mental através das seguintes instituições: Museu de Imagens do Inconsciente e Casa das Palmeiras. Atualmente é pesquisadora do Ateliê de Pesquisa do Ator regido pelo Sesc Paraty; pesquisadora do Grupo de Pesquisa Mito, Rito e Cartografias Femininas regido pela UERJ e pesquisadora do Núcleo de Estudo Geracionais sobre Raça, Arte, História e Religião regido pela UFRJ. É atriz da performance Ei,Mulher com a Coletiva Agbara Obinrin, que em yorubá significa Força Mulher, e é jornalista colaboradora do Não Me Chamo Mãe. Como mestranda do Instituto de Artes da UERJ, tornou-se bolsista CAPES e desenvolve sua dissertação sobre Orixá Obá em Performance – Influxos Artaudianos via Mitodologia em Arte na linha de pesquisa Arte, Cognição e Cultura.

1. Ser negra e periférica e se assumir como tal é um processo que, para mim levou anos para ser aceito, até pouco tempo atrás considerava abominável cada cacho que se formava no meu cabelo e gastava horrores para alisar, não me sinto envergonhada em admitir que fui vítima dessa padrão que a sociedade considera aceitável e queria saber como foi para você esse processo de aceitação.

Aos meus 23 anos, em que eu chamo de época de ouro, eu chutei o balde. Rompi o noivado de 6 anos e rasguei as costuras do enxoval que carecia de verdade. Lembro-me de seguir o protocolo, do orgulho vazio por possuir no dedo uma aliança bem grossa, era quase que um escudo. Mas eu resolvi me jogar no vazio para descobrir quem sou, ainda que inconscientemente. Com esse término, cortei o cabelo curtinho de uma só vez. Recordo da dor e do amor que me permearam no mesmo instante. Me vi feia, forte, linda, frágil. Segui. Ali percebi a densidade de minha negritude. Depois da gravidez meu cabelo ficou mais ralo, mais sedoso. Mas antes era um crespo intenso, uma mata cheia, de raízes profundas. Na época de minha transição, poucas mulheres exibiam o natural, já fazem 9 anos, enfim. Me tornei agressiva para bancar a bronca de afrontar os espaços, antes era meiga, carinhosa. Mas aos 23 enraiveci. Lá se vão alguns ciclos entre pinturas, tranças, cortes e agora, há 4 meses, sem guanidina, sem tintura, sem penteado definido. Assim inteira. Foi um longo processo…

2. A maternidade foi um passo importante para seu caminho, já inserida no papel de mãe e preta como você agrega esse papel a sua jornada?

Tudo começou quando eu brinquei estar grávida, fingi ao meu marido menstruação atrasada só pra ver sua reação. Ele chorou de soluçar quando soube que era mentira, que eu não carregava semente alguma em meu ventre. Percebi ali uma pausa em suspensão, era chegada a hora. Aí fizemos ritual para jogar os anticoncepcionais ao vento no dia de nosso aniversário de casamento em cima d’um balão. Foi bonito. Mas quando enfim grávida, quase surtei. Fui tomada por um mar azul marinho e não celeste. Engravidar é entrar em contato com muitos complexos, a começar pelo materno. Engravidar é ser canal entre passado e presente. Engravidar é ouvir vozes da ancestralidade. Aí dei luz não só ao Zabir, meu guerreiro esplêndido, dei luz a mulher que já me habitava mas que estava na sombra de mim. Essa mulher escreveu poesias, lançou livro, navegou em performance, alargou em espetáculo, deu um grande salto ao mestrado tornando-se bolsista. E sobretudo aceitou ao chamado das orixás, que há anos lhe sussurravam… Dei uma grande volta né (risos), tentando responder sua pergunta sem metáforas, para mim, ser mãe preta é assumir todas as potencialidades que um dia foram silenciadas…

3. Como nasceu a performance do Ei mulher, li em entrevistas anteriores que você o identifica como um chamado, uma missão, pode nos contar mais sobre isso?

Desde menina eu ouvia de minha avó paterna, mãe-de-santo de terreiro de candomblé vindo da Bahia, que… eu seria sua sucessora. Também desde menina eu sentia a repressão em minha casa para abafar esse chamado. Sou oriunda de um casamento inter-racial e permeado de divisão de classes e alienação parental também. Nosso contexto histórico de embranquecimento social fez-me católica por 25 anos de minha vida, fui beata, coordenadora de pastorais, essas coisas. Mas em 2011 passei a dar aula de Artes Cênicas numa escola marxista e o que isso tem a ver? Olha! Passei a entender melhor sobre o sistema do capital e a igreja apostólica romana. Revoltei, reivindiquei, ainda dentro do catolicismo, me tornei a polêmica, quebrava o Padre no discurso. Mas pra quê? Aos poucos fui percebendo que esse ciclo já não me fazia bem, era um movimento perverso, eu sofria. Aí quando prenha, em 2014, voltei a ouvir sobre a sucessão de meus antepassados. Disseram-me que Zabir era um menino-rei, que ele traria um novo tempo do velho sul. Ei,Mulher faz parte dessa trajetória. Ei,Mulher é a junção de meu corpo, de minha alma e de meu espírito. Ei,Mulher trouxe o meu sim, abri a porta para todas elas, as deusas, as yabás, aceitei. Cabe te contar que assim que Zabir nasceu, ele era um menino faminto e eu sem bico de seio para amamentar, foi um tormento sangrento, ele chorava sem parar. Para aquietar, meu marido cantava tentando niná-lo, mas sabe qual música ele abrandou o berreiro? “Eu vi mamãe Oxum na cachoreira…” Lindo né! Aí Ei,Mulher foi proposto por uma atriz filha de quem? Sim, a performance surgiu porque Luana Vitor fomentou. Ela ouviu a declamação da poesia de mesmo nome no lançamento de meu livro de poesias Cria Jubal e disse: “Precisamos criar uma performance com outras mulheres negras com base nessa poesia!”. Posteriormente, ganhei um quadro de pinturas, adivinha de qual yabá? Esse quadro foi dado por um cliente do Museu de Imagens do Inconsciente, eu desenvolvia uma pesquisa terapêutica lá, enfim. Aí, para finalizar o mistério das águas, minha orientadora de mestrado também é de Oxum. Embora eu seja Oyá de cabeça, é Obá o mito-guia de minha dissertação, já sabe que pairei sobre essas duas né? Estou mergulhando no sangue da escuta de Obá, na orelha que um dia ferida transformou em afeto, ressignificando a raiva como potência. Oxum é a Rainha da fertilidade, ela me envolveu na gravidez e me trouxe ouro como presente! Orayeyê!

ei mulher

4. Pode nos falar um pouco sobre a Coletiva Abgara Obirin e sobre sua ligação atual com a religião afro-brasileira?

Bem, falar sobre a Coletiva Agbara Obinrin é falar do processo de criação de Ei,Mulher! Com essa coletiva aprendi que somos todas deusas, todas elas me habitam: Oxum, Iansã, Obá, Yemanjá, Ewá e Nanã. Aprendi que os mitos viventes estão aí para serem oxigenados, ressignificados. Aprendi que podemos ser orixás personificadas, uau! Aprendi muita coisa. Aprendi não, estou aprendendo, assim no gerúndio. Olha! Na coletiva tenho duas referências de terreiro, uma é filha de mãe-de-santo e vai raspar a cabeça esse ano; e a outra é iniciada nos oráculos de ifá. Sou afetada por suas vivências, conversamos muito sobre muitas coisas. Mas o objetivo geral da coletiva é o espetáculo-performativo de cena-ritual-curativa, nos unimos através da arte e não da religião, embora a arte possa ser religião em uma certa medida. Em nossa coletiva temos inclusive atriz que é evangélica, enfim. Quanto à mim, tenho frequentado alguns terreiros em dias festivos, inclusive já fui no centro de umbanda de minha família materna, foi emocionante a festa de Obaluaê, chorei à beça, mas não sei se lá será a minha casa. Gostei muito do terreiro de uma amiga de infância que nos reencontramos depois de 17 anos, parece sincronicidade do universo né, lá é candomblé. Também já marquei jogo de ifá sabe. Mas estou feito andarilha no momento… uma andarilha que jorra amor, só amor!!

Coletiva Agbara Obinrin

5. O Cria Jubal rendeu o resultado que você esperava?

Vish! Pergunta capciosa essa hein, quase matemática. Claro que quando a gente embarca em algo novo, faz-se uma certa expectativa né. Mas não, com o livro Cria Jubal eu não esperava vender inumeráveis livros e ficar conhecida. Quando lancei o livro, eu ainda era recém parida, acho que eu só esperava agradar meu ciclo de amigos. Ou melhor, nem sei o que eu esperava. Lembro que no dia seguinte do lançamento, putz, chorei o dia inteiro, de soluçar, não de alegria mas de melancolia. Me senti invadida. Imaginava as pessoas desconhecidas que saberiam de minha história poética, de meus movimentos metafóricos. Quase enlouqueci! Estou escrevendo um novo livro, tenho 46 poesias já, talvez vá se chamar Devir-Mulher, mas confesso que tenho medo de me expor outra vez e sofrer-espernear por deixar voar minha placenta inspirada. Mas refletindo agora enquanto te respondo, Cria Jubal foi para-além, alcançou muros outros. Cavou em mim o matriarcado negro, reverberou a potência de minha ancestralidade! E isso não tem preço calculável, é mais profundo do que vender muitos livros e ganhar porcentagem de venda… Isso está no infinito do mar, do indizível do ser.

cria jubal

6. O projeto Na Estrada com as Minas têm por objetivo também essa visibilidade a mulher, negra e independente, qual mensagem você deixaria para nossas leitoras que ainda hoje têm dificuldade em se encontrar nessa sociedade e se posicionar?

Poxa… de antemão gostaria de frisar que permaneço na eterna reticência. Não sou, eu estou. Não sei se me sinto apropriada para aconselhar outras mulheres como se fosse uma cartilha, porque cada uma tem o seu processo sabe, e processo é algo individual. Mas uma coisa que me parece amplo é buscar a memória, nós mulheres negras sobretudo, demos 7 voltas na árvore do esquecimento quando viemos escravizadas pra cá, fomos ensinadas a nos calar. Então, se não puder soltar o grito que está preso, sussurre para si pelo menos. Aprofunde em seu mito vivente, dê asas à sua intuição, abra espaço para suas águas internas, aceite-se, inteira. Aí, aqui fora, para se proteger, crie estratégias, cascas, casulos. Mas para você mesma, não. Para você mesma, reconheça a potência de sua memória, a memória dessa e de outras vidas suas.

Jubas Contentes

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Estudante de jornalismo, produtora de conteúdo e amante de uma boa leitura, correspondente do projeto Na Estrada com as Minas a poucos meses com foco na produção de textos sobre nossa cultura. Rodas, danças, costumes e tradições que fazem valer a pena cada viajem por esse Brasil!



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