Circuito Histórico e Arqueológico da Herança Africana

Circuito Histórico e Arqueológico da Herança Africana

Escrever sobre qualquer assunto é acima de tudo contar a verdade, aprendi isso em uma das muitas aulas de Legislação e Ética na Comunicação, o nosso dever vai muito além de contar histórias e hoje, gostaríamos de contar uma história que nossa sociedade insiste em apagar, para neutralizar os erros do passado que se repetem ano após ano, em diferentes níveis.

O Circuito Histórico e Arqueológico da Herança Africana traz à tona a importância histórica e cultural da Região Portuária do Rio de Janeiro para a compreensão do processo da Diáspora Africana e da formação da sociedade brasileira.  Achados arqueológicos motivaram a criação do Grupo de Trabalho Curatorial do Circuito Histórico e Arqueológico da Herança Africana, pelo Decreto Municipal 34.803 de 29 de novembro de 2011 para construir coletivamente diretrizes para políticas de valorização da memória e proteção desse patrimônio.

No dia 23 de Julho de 2017, o Projeto Na Estrada com as Minas convidou duas historiadoras – Jéssika RezendE E Jéssica Raul – para ministrarem uma aula de história a céu aberto e nos contar todas as verdades encobertas sobre a vida dos africanos e seus descendentes na Região Portuária do Rio de Janeiro.

O Cais do Valongo e da Imperatriz

Durante as escavações para as obras de revitalização da Região Portuária do Rio de Janeiro, o Cais do Valongo foi encontrado, reconhecido hoje como Patrimônio Histórico da Humanidade, guarda em suas ruínas muitas histórias não contadas que foram soterradas por quilos de ignorância e desrespeito, o Cais é o primeiro sítio da América reconhecido como Patrimônio relacionado diretamente à escravidão e o mesmo não recebeu esse título apenas por seu valor arquitetônico, arqueológico ou mesmo histórico, mas principalmente por ser um lugar considerado de “memória sensível” – simbolizando um crime contra a humanidade.

Ele não era um ponto de desembarque qualquer: dos 4 milhões de africanos escravizados que vieram forçadamente ao Brasil em 300 anos de tráfico, 2,4 milhões entraram no País pelo Rio de Janeiro, e  1 milhão deles pelo Cais do Valongo, números alarmantes, em três séculos do regime escravocrata do Brasil, o País recebeu 40% de todos os africanos que chegaram vivos à América.

O Cais foi construído em 1811 pela Intendência Geral da Polícia do Rio de Janeiro para atender a um pedido do Vice-Rei, Marquês de Lavradio, feito em 1779 para retirar da Rua Direita, atual Primeiro de Março, o desembarque e comércio de africanos escravizados, o mercado se intensificou após a construção do Cais que recebia em sua maioria africanos do Congo e da Angola, Centro-Oeste africano.

Quando em 1831 o tráfico transatlântico foi proibido por pressão da Inglaterra – determinação que foi completamente ignorada no país, onde recebeu a alcunha “lei para inglês ver”. O desembarque continuou acontecendo de forma ilegítima. Já em 1843, o Cais sofreu uma significativa transformação, o antigo foi aterrado para dar lugar à construção de uma nova memória, ele foi remodelado com elegância para receber a Princesa das Duas Sicílias, Teresa Cristina de Bourbon, noiva do (então) futuro Imperador D. Pedro II, e passou a se chamar Cais da Imperatriz. Com as reformas urbanísticas da cidade no início do século XX, o então Prefeito Pereira Passos, ordenou que o Cais do Valongo e da Imperatriz fosse aterrado em 1911.

Pedra do Sal

A Pedra do Sal, tombada como Patrimônio Histórico e Religioso é um lugar muito significativo para o povo negro por diversos motivos, reconhecido como um lugar de resistência tornou-se referência para a cultura negra, tendo sua importância baseada nos valores afetivos e culturais.

O lugar que ficava bem próximo do mar ganhou esse nome por ser lá onde o sal era descarregado na rocha por africanos escravizados no século XVII. Os degraus foram esculpidos para facilitar o trabalho de subir a pedra lisa e escorregadia.

No bairro da Saúde, onde se localiza a Pedra do Sal, debruçada sobre o porto era uma pequena Bahia (assim como a Bahia, era uma pequena África). Lá se encontravam as célebres Tias – Bibiana, Marcelina e Ciata – e foi onde os batuques e jongos se transformaram em partido-alto e, logo, no samba que conhecemos.

Jardim Suspenso do Valongo

O Jardim Suspenso do Valongo é uma bela contradição, concebido como um jardim romântico, aos moldes das construções francesas, o local é uma réplica de parques franceses do século XIX, nele se encontravam inclusive quatro estátuas de mármore representando divindades romanas: Minerva, Mercúrio, Ceres e Marte, essas estátuas foram retiradas do Cais da Imperatriz que na época se encontrava em ruínas e colocadas no Jardim, porém ao serem depredadas, a prefeitura as transferiu para o Palácio da Cidade, em 2012 foram colocadas réplicas das estátuas originais no Jardim, após a restauração deste como parte do projeto de revitalização do porto. Assim como o Cais da Imperatriz foi construído para apagar uma memória que “manchava” a história do Rio de Janeiro, construído a 7 metros acima do nível da rua o Jardim foi construído para mascarar o que de fato acontecia nas redondezas.

A antiga Rua do Valongo, que ligava o Cais do Valongo ao Largo do Depósito, abrigada lojas que vendiam artigos relacionados à prática da escravidão, assim como casas de engorda também, onde os africanos recém-chegados eram acomodados, para que pudessem ganhar peso a fim de aumentarem seu valor de mercado, nesta rua existiam mercados onde os africanos eram expostos a potenciais compradores. Do alto, podia-se vigiar toda a movimentação daquela área e cidade continuava disfarçadamente bonita passando por um processo de transformações que tinha como referência a Europa.

Largo do Depósito

A Praça dos Estivadores, antigo Largo do Depósito abrigava armazéns de “negociantes de grosso trato” que controlavam o tráfico negreiro. Quando em 1779, o Marquês de Lavradio transferiu o mercado de escravos da Praça XV para o Cais do Valongo instalaram-se diversos negócios na praça relacionados à prática da escravidão, como a instalação de trapiches, manufaturas e armazéns, além das casas de engorda. O mercado foi extinto oficialmente em 1831.

Em 1843, a praça ganhou o nome de Largo da Imperatriz, por ser próximo ao porto onde a Imperatriz Teresa Cristina desembarcou na sua chegada ao Brasil.

Cemitério dos Pretos Novos

Esse sendo o ponto final da nossa jornada é sem dúvida o lugar mais emocionante de todo o trajeto. Nós ficamos muito arrepiados com a belíssima aula que as duas historiadoras convidadas, ambas Jéssi(k)cas nos deram, mas quando chegamos ao Instituto dos Pretos Novos as palavras dão lugar ao profundo silêncio em respeito a todas as pessoas que foram desumanizadas, tratadas com se fossem literalmente um lixo, algo completamente descartável.

Pretos Novos eram cativos que não resistiam às longas e tortuosas viagens transatlânticas, muitos morriam no caminho e outros tantos morriam pouco tempo depois de desembarcarem aqui no Brasil e todos eram jogados, como lixo em valas rasas, alguns moribundos também eram descartados nessas valas, com restos mortais, ainda que restasse uma centelha de vida neles, bastava os senhores dizerem que não prestavam para que a vida lhes esvaísse de forma inclemente.

Estima-se que tenham sido enterrados de 20 a 30 mil pessoas, embora os registros oficiais desses números sejam bem menores é considerado o maior cemitério de escravos da América. Os corpos eram jogados em valas e queimados, em alguns casos, membros eram separados de seus corpos para que coubessem mais pessoas nas valas, o lugar servia também como depósito de lixo, o que mostra o tratamento indigno que os africanos recebiam dessa “Pátria Mãe Gentil”…

O cemitério funcionou de 1776 a 1830 quando foi desativado e ficou escondido até 1996. Hoje a casa funciona como Centro Cultural para o resgate da história da cultura africana e oferece cursos e oficinas, além de uma biblioteca sobre a temática negra. Ainda que seja um dos pontos cruciais que remonta a trajetória dos africanos escravizados no Rio de Janeiro, o local corre risco de fechar suas portas por falta de verba, o aporte de R$ 100 mil solicitados à prefeitura foi negado.

O IPN funciona de terça a sexta-feira, das 13h às 18h. Para visitar nos fins de semana e feriados é preciso entrar em contato com a responsável e agendar uma visita através do telefone (21) 2516-7089. O Instituto recebe doações colaborativas para que não feche as portas enquanto aguarda uma solução da Prefeitura.

Gostaríamos de agradecer imensamente a todos que compareceram a essa fantástica aula de história e dizer que nos sentimos honradas por confiarem em nosso trabalho, prometemos trazer sempre conteúdo relevante e de qualidade e estreitar os laços com vocês que nos leem e nos seguem é a nossa prioridade. Obrigada a todos os envolvidos pela confiança, pelo respeito e comprometimento. Foi um dia incrível e estamos ansiosas pelos próximos!

Sobre

Jéssica Raul – Historiadora, moradora e militante de Acari/Coletivo Fala Akari, mãe negra, que possui interesse político/intelectual sobre questões relacionadas à Educação para as Relações Raciais. Promove discussões no âmbito do direito à cidade, principalmente no que tange às mulheres na disputa por espaço.

Jéssika Rezende – Historiadora e Professora da Rede Estadual de Ensino. Concluiu o mestrado e recentemente ingressou no Doutorado na FE/UFRJ com enfoque em história e cultura afro-brasileira, movimento negro e relacões étnico-raciais.

Fontes:

Porto Maravilha

Carta Capital

Mapa de Cultura

Agência Brasil EBC

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