Chapada Diamantina: meu recomeço – por Annaís Berlim

Chapada Diamantina: meu recomeço – por Annaís Berlim

A Chapada Diamantina se tornou meu infinito particular. Sim. Aquele lugar é de uma magia tão grande, e de uma imensidão tão infinita que tomou meu coração de amor, daqueles amores suaves, que invadem de forma lenta e perpétua. Eu havia acabado de terminar uma relação. Foi um término difícil. Meu irmão acabava de se mudar do apartamento onde moramos juntos e dividimos histórias por dois anos e meio, e foi para outro país. Eu estava me readaptando à vida. À vida sem namorado, à vida sem meu irmão, e precisando aquietar e sossegar a mente e o coração para então entender o que fazer com aquilo tudo que restara de mim. Ou aquilo tudo que a vida fez de mim. Como sou uma viajante adicta, tenho sempre uns trocados salvos na poupança com o intuito de gastar em andanças. O objetivo desse dinheiro era viajar com meu ex, mas a vida, como sempre, e como um rio, encontra pedras e troca os caminhos. A Chapada Diamantina sempre foi um sonho adiado. Resolvi então comprar passagens, arrumar mochila e sem pensar muito embarcar no meu sonho outra vez.

Recolher dicas e informações da Chapada é quase uma missão impossível. Porque o lugar é enorme e tem diversas opções. Em contato com uma pessoa íntima que já conhecia o lugar, e me conhecia muito bem, peguei as informações básicas: qual cidade ficar, preço médio de hospedagem, preço médio de alimentação, preço médio de passeios. Catei meus equipamentos de trekking, camping, biquinis, chinelos, canga, celular e fones de ouvido e com uma certeza de que lá eu encontraria a nova Annaís pós tantas mudanças, eu embarquei nessa jornada espiritual. Porque foi exatamente isso que essa viagem foi pra mim.

Pra chegar até a Chapada Diamantina, voei até Salvador. Do aeroporto fui até a Rodoviária. Lá comprei passagens para Lençóis. A cidade de Lençóis já é dentro da Chapada. São seis horas em média, de ônibus. A dica é pegar o ônibus da noite, que assim você dorme e chega pelo dia podendo já aproveitar o lugar. Na rodoviária, fiquei impressionada com a quantidade de mulheres indo pra Chapada sozinhas. Lá me aproximei de uma dessas, a Paula de São Paulo, que estava fazendo sua primeira viagem sozinha, também impressionada com a quantidade de mulheres viajantes solas. Estávamos orgulhosas. A Paula seguiu viagem até o Vale do Capão, e eu desci em Lençóis. Eram cinco da manhã. A cidade pequena e charmosa estava deserta. Sob uma neblina e o orvalho da madrugada. O Hostel de Lençóis foi a única coisa que eu havia reservado com antecedência. Encontrá-lo foi uma missão um pouco assustadora. Caminhar pela cidade naquele horário, no frio e no escuro,  sem pessoas para pedir informação foi a primeira missão dada. Porém cumprida. Outra missão foi fazer alguém me atender no Hostel. Toquei a campainha diversas vezes. Esperei. Sentei. Tirei a mochila das costas. Com meu espírito aventureiro e audacioso, analisei diversas formas de entrar no local sem que alguém precisasse abrir a porta pra mim. Quando estava prestes a pular um portão lateral que eu pensava dar acesso ao hostel, um homem me recebeu na porta. Ufa! Descansei duas horas e acordei disposta a desbravar. Chovia. O que me fez passar a manhã nas redondezas da pequena cidade. Caminhando pelo local. A tarde, o Sol  foi acordando e foi quando enfim, eu comecei a desbravar a Chapada Diamantina. Próximo a cidade de Lençóis, tem diversas cachoeiras. Todas de fácil acesso. É indicado pagar um guia se você não é boa de orientação. Fazer amigos é uma arte, então com o Daniel, carioca que estava no hostel trocando trabalho por acomodação, me acompanhou em algumas trilhas. E parecia que a gente se conhecia dos bares do Rio!

No dia seguinte, resolvi pagar um pacote do hostel para fazer uns passeios um pouco mais distantes da cidade.  Pra quem vai sem carro, como eu, é importante falar aqui que os passeios são relativamente caros, por conta da distância de muitos deles. Porém, imperdíveis. Nesse pacote visitei a Gruta da Lapa Doce, Poço do Diabo, Gruta Azul e o Rio da Pratinha. Todos incríveis. A Gruta da Lapa Doce, uma gruto com mais de 900 metros de cumprimento, cheia de estalagmites e estalactites. É toda no escuro que você faz a travessia da gruta. O guia é obrigatório. Você recebe uma grande lanterna, e no meio da gruta, o guia pede para que todos fiquem em silêncio e desliguem suas lanternas. Nesse pequeno minuto ali dentro, eu chorei como uma criança. Não assustada, mas impactada. Esse é o poder que a natureza tem em mim. O Poço do Diabo, foi a primeira cachoeira grande que vi na Chapada. Chovia, mas o mergulho era inevitável! Mergulhei e nadei até a queda d’água, onde me banhei lavando o corpo e a alma!

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A Gruta Azul, apesar de linda, não foi muito surpreendente, pois é necessário ter a luz do Sol e o dia não estava realmente ensolarado.  O Rio da Pratinha é de uma cor inacreditável, assim como a gruta azul, mas não precisava da luz do Sol para se notar o azul da água. Uma das provas de que a Chapada Diamantina já foi mar – sim, pasmem como eu pasmei! – é o fundo da gruta azul e das grutas que se formam no rio da Pratinha, é composto por micro búzios. Conchas marinhas!

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Uma das únicas coisas que eram certas para mim nessa viagem, era a travessia do Vale do Pati. Na rua, voltando de uma trilha, conheci Gilvan. Um guia que ofereceu seu serviço por um preço super em conta, ele recrutou um grupo de estrangeiros e no dia seguinte partimos cedo para o Pati. Começamos a travessia pelo Andaraí. O Vale do Pati costumava ser o vale mais habitado da região. Foi reflorestado e a população se mudou para as cidades em torno e povoaram também o Vale do Capão, nosso destino final na travessia. No Pati, o governo deixou poucas casas de famílias – três, se não me engano –  todas abastecidas com energia solar, que servem como casa de apoio aos viajantes que topam o desafio do Pati. Lá eles têm beliches, banheiros e cozinha. Mas vale lembrar que a hospedagem não é gratuita e o banho é gelado!

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A experiência do Pati foi transformadora, como toda travessia que faço em plena natureza. É dessa forma que eu entro em contato comigo mesma e com minha espiritualidade. Por isso o montanhismo é o meu mais querido hobbie. O Pati, selvagem, pleno, enorme, cheio de cachoeiras inacreditáveis, e morros quase ocos, cheios de grutas e desafios, foi o ápice da minha estadia na Chapada. O Morro do Castelo, no meio do Pati, é de tirar o fôlego. Tanto pela subida, quanto pelo caminho, onde se atravessam grutas e lugares mágicos até alcançar o resultado final. A visão da floresta e das cachoeiras, do gerais e dos morros. Ficamos ali em silêncio. Contemplando. Sentindo o vento. Absorvendo tudo que a floresta pode nos dar. Eu saio sempre enriquecida e repleta. Emociada. Transformada.

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No último dia da travessia, o dia mais pesado, cruzamos com Maísa. Um anjo negro que caminhava sozinha pelo Pati. Pediu pra nos acompanhar. Foi bem vinda. No final da caminhada pode-se ver o Vale do Capão de longe. O coração respira. Pegamos o final da caminhada já de noite. Como a descida do Morro do Castelo também. Aliás, uma boa dica pra qualquer trekking, principalmente trekking desse nível, onde cruza-se rios diversas vezes e anda muito em pedra, um bom sapato é essencial. Se você tem o trekking como hobbie, é um investimento necessário, pois o bem estar dos seus pés e a segurança da trava de seus sapatos, garante um bem estar durante toda a caminhada. Ao fim da trilha, cruza-se os Gerais, enormes planícies maravilhosas a luz do pôr – do – sol. Imagens que estarão na minha cabeça e coração para o sempre.

Chegando no Vale do Capão, fomos direto jantar. O Capão, um vilarejo simples povoado por esse povo bahiano que é de uma doçura e uma simpatia sem igual. O restante do grupo seguiu viagem de van de volta pra Lençóis. Eu e um português optamos por ficar no Capão. Maísa nos ofereceu uma rede e um colchão no chalé onde ela estava hospedada. Passei duas noites com ela lá. O chuveiro com água quente, depois de dias caminhando na mata e tomando banho gelado na fria noite da floresta, era como colo de mãe. Maísa toca violino e canta em dialetos africanos, e foi mágico nosso encontro. No primeiro dia no Capão eu descansei. Na calmaria da Bahia, eu dormi na rede e embalei um dia inteiro, repousando o corpo depois do esforço do Pati. No segundo dia já comecei a explorar. A vantagem do Capão é que você pode ir fazer as trilhas sem necessariamente precisar pagar um guia. Eu sou acostumada a caminhar em trilhas, e confio na minha orientação, mas se não é o caso, vale a pena pagar um guia local, tanto pra valorizar o trabalho deles, quanto pra valorizar sua própria vida. Era noite quando o dono do chalé chegou cheio de amigos, e até ofereceu um pedaço do chão pra eu esticar meu saco de dormir. Mas pensei que já era hora de eu seguir. Maísa voltava para casa no dia seguinte de manhã. Eu arrumei a mochila e fui atrás de um camping. Camping encontrado, era noite, mas modéstia a parte, conheço minha barraca como o meu quarto, e montá-la a noite nçao foi um desafio. Barraca montada, barriga alimentada, corpo enroscado no saco de dormir. As noites no Capão são frias e estreladas. Meu saco de dormir e minha barraca, um berço!

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Passei quinze dias acampada sozinha no Capão. Consegui desconto no camping por conta da quantidade de dias que ficaria. Isso é uma boa dica: tudo na Chapada pode ser negociado, não tenha medo de ouvir não! As pessoas chegavam e partiam, e minha barraca se mantinha lá. O responsável do camping virou um companheiro de conversa todo fim de noite. No dia que choveu sem parar, fiquei solitária dentro da barraca e aprendi um pouco mais sobre valorização de amizades e sobre eu mesma.

Achar gente pra fazer trilha e ir nas cachoeiras é fácil. Todo mundo está lá pra isso. Fiz muitas acompanhada e muitas sozinha. Me perdi um bocado, mas sempre achava a trilha certa de volta. Já havia pego o contato do Anderson, que foi incrível comigo e demos bons passeios juntos. Finalizados com um baita almoço, cachaça, final de tarde, e cerveja na praça. Teve um dia que ele me recebeu junto com outras pessoas que encontramos pelo caminho na casa dele, e nos preparou uma super moqueca! Salve Anderson, um querido! Com seu pequeno companheiro Jack (seu cachorro) ficaram pra sempre registrados no meu coração. Jack é um trilheiro de primeira e nos acompanhava super bem, tanto como nos passeios de moto até o começo das trilhas – sim, jack andava de moto com a gente! – quanto nos mergulhos nas águas frias. No Capão, as trilhas costumam ser um pouco distantes da vila. Então as vezes vale pagar um moto táxi, ou conseguir uma carona na estrada, que funcionam muito bem, peguei um monte de carona por lá. Procurem por Anderson, ele é guia, fica entre o camping do seu Dai, e o camping sempre viva. No espaço Arterra.

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Nos meus últimos dias no Capão, aportaram no camping, um grupo de pessoas maravilhosas. Viraram meus amigos. Era um grupo de anjos. De verdade. Eles me receberam como irmã. Me acolheram como uma família. Ficamos íntimos em instantes. Com eles fiz a trilha mais gostosa de todo o Capão. O circuito das Aguas Claras. Também finalizado ao anoitecer, onde a luz da lua iluminava o caminho. E em determinado momento, nos sentamos e silenciamos. Observando a vastidão da Chapada. E o poderoso Morrão. Minha paixão no Capão, namoramos os quinze dias em que estive lá. Com eles fiz também a Cachoeira da Fumaça, onde Billy, com seu mágico instrumento, estonteou todos nós e lá do topo dos 380 metros de queda d’água, fomos enfeitiçados e choramos juntos de emoção. Fica resgistrada aqui minha eterna gratidão e amor por esse grupo, meus ciganos, meus guias espirituais, meus irmãos de alma.

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Ir embora do Capão é um parto. Ninguém consegue ir tão fácil. Adiei dois dias minha partida. O choro é certeiro, e o sentimento de comunhão fez eu criar raízes naquele lugar. Foi plantada uma semente assim que eu entrei no Pati, e durante os quinze dias que fiquei no Capão, uma árvore cheia de frutos e raízes cresceu dentro de mim. Eu queria retornar para Lençóis e ficar mais uns dias lá para os passeios que eu ainda não tinha feito. Nos meus últimos dias, conheci outros lugares mágicos, falarei aqui do Poço Azul. Que é completamente inacreditável e mágico. Na minha opinião, um passeio que é imperdível. Primeiro que é no meio de um lugar que você nem imagina haver um lugar tão mágico assim. O tempo é bastante limitado, e um banho é obrigatório antes de entrar, para que você tire do seu corpo qualquer creme, óleo ou coisa do tipo que possa sujar a água. O Poço Azul não tem como descrever. Só indo e nadando naquela água dá pra entender. Ou ao menos sentir, porque entender pode ser complicado demais.

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Quando cheguei de volta em Lençóis e optei por um hostel diferente (lá não tem camping barato). No hostel, optei pela primeira vez por um quarto feminino. E foi uma opção maravilhosa!!! No quarto, com quatro camas, haviam mais três mulheres, todas viajando sozinhas. Viramos amigas! Falávamos de tudo, besteiras pra dar e vender, e trocamos confissões sinceras e emocionadas sobre nossas vivências. Onde três, em uma mesa de quatro, já haviam passado por experiência de violência machista. E docemente nos olhamos nos olhos e tivemos certeza que estávamos ali uma pra outra. E que não estávamos sozinhas. E essa é a maior dica que eu posso dar às mulheres que temem viajar sós: nós estamos por todos os lados! Vocês nunca estarão sozinhas. As mulheres são nossas amigas, e juntas, somos muito mais fortes! Vocês me inspiram mulheres maravilhosas! E o episódio do gato está guardado com amor! (Suellen, Marina e Juliana!)

A Chapada Diamantina é lugar pra todo mundo. Certifique-se de ficar o tempo ideal para não perder os cantinhos preciosos daquele lugar. Em opinião pessoal, não acho válido um passeio de menos de sete dias. No mais, vá sem medo. Vá sabendo o mínimo. Vá! Vá e se apaixone!

 por Annaís Berlim

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