Cais do Valongo e Tambor de Cumba – por Adriana Farias

Cais do Valongo e Tambor de Cumba – por Adriana Farias

O mês de julho de 2017 foi um marco para a cultura dos afrodescendentes no Rio de Janeiro . Um dos lugares de maior peso para resistência cultural, o Cais do Valongo, porta de entrada de aproximadamente 900 mil africanos escravizados no século 19, foi reconhecido e nomeado como Patrimônio Mundial pela UNESCO. Cercado por antigos mercados escravagistas, o Cais hoje é símbolo de resistência e casa para celebrações da cultura afro-brasileira, parte da história do país.

Reconhecendo esse grande peso para nossa história o projeto Na Estrada com as Minas foi até a Gamboa celebrar essa grande conquista com o grupo de cultura popular Tambor de Cumba que à aproximadamente três anos faz do Cais do Valongo palco para um grande ato de resistência e culto às tradições oriundas de nossos ancestrais africanos. Jongo, samba de roda e coco foram umas das expressões culturais expressas ali para saudação do nosso espaço.

Roda do grupo Tambor de Cumba

Aninha Catão, nome conhecido no meio de cultura popular afro-brasileira, bailarina e diretora artística, desenvolveu em 2011 o projeto Tambor de Valongo com objetivo de conscientização da identidade da cultura negra e sua importância. Com a administração de palestras, oficinas e apresentações artísticas conquistou o espaço do Cais do Valongo em 2013 com objetivo de levar à zona portuária a história do africano que ali chegou escravizado.

No dia da roda o Cais estava fervendo. O grupo Afoxé Filhos de Gandhy também estava ali em uma celebração especial e o agogô que marca do ritmo da festa do grupo se fazia ouvir a distância. Com uma oração para enceramento da roda e um convite caloroso para que todos os presentes ali os acompanhassem até a roda do Tambor em minutos as escadarias do Cais ficaram repletas de pessoas guiadas pela procissão feita pelos Filhos de Gandhy rumo à roda de jongo que já se iniciava pelo grupo Tambor de Cumba. Três tambores, um ponto de abertura para saudar o lugar e em minutos a roda de jongo já estava formada. Saias rodadas, coloridas, o charme e energia positiva que só quem já foi a uma roda de jongo pode sentir – o grupo Tambor de Cumba empresta saias para aquelas que se sentirem mais ousadas em entrar na roda para jongar, várias são expostas no local da roda para que as mulheres fiquem a vontade para usá-las. Pontos de louvação aos orixás, pontos que contaram a história do lugar e do povo africano, e pontos cantados por visitantes de outras comunidades jongueiras que se fizeram presentes para festejar junto com o grupo. Assim se deu a roda até um breve encerramento para dar lugar ao ritmo de coco. Logo uma alfaia (instrumento de percussão) já estava presente na roda ditando o ritmo da dança. Com muito mais agitação a dança de coco requer pernas fortes e fôlego e todos na roda conseguiram acompanhar, senão dançando, com palmas fortes e canto. Nesse momento da festa, já por volta das 20h00min, a multidão nas escadarias já tinham se dissipado restando alguns poucos curiosos e é claro os que estavam ali para acompanhar o grupo.

O samba de roda também fez festa com o grupo e começou seguindo do jongo que voltou para encerrar a festa com chave de ouro e com seus pontos de despedida ao lugar. Por volta das 21h00min a roda já estava no fim deixando uma vontade de quero mais. Confraternização e despedidas, as crianças, figuras presentes na roda, corriam no lugar se e divertiam com a alegria de enfim pode bater nos tambores.

O ambiente é familiar, o grupo é formado por pessoas alegres que te recepcionam na roda como se fossem amigos de anos. Próximo ao ambiente é vendido sempre uma comida caprichada e durante minha visita experimentei uma caldeirada de frutos do mar maravilhosa e quentinha, tudo que precisava no sopro gelado da noite, não sem antes recebe um abraço da tia da barraquinha, Dona Ana que agradeceu pela venda, já que naquele momento os lucros estavam sendo revertidos para ajudar um senhor mestre jongueiro que passa por dificuldades.

Fotos: Tambor de Cumba

É inegável o valor que o movimento de cultura popular Tambor de Cumba fornece a zona portuária do Rio de Janeiro e a resistência e conscientização da história de nossa ancestralidade. Com projetos que visam não só a manutenção de uma atividade mensal no cais, como também a implementação da cultura negra na sociedade carioca por meio de oficinas para quem quiser se aprofundar mais na nossa cultura. Aulas de jongo também são ministradas pouco antes das rodas que ocorrem todo terceiro sábado do mês às 16h00min no Cais e também ministradas aulas pela administradora Aninha Catão na Casa Porto toda segunda às 19h00min e sábado às 11:30min. Recomendo uma visita ao Cais do Valongo e a roda do Tambor do Cumba para celebrar e honrar a conquista e o reconhecimento do valor de nossos ancestrais.

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Mulheres tão particulares, com um único objetivo em comum, viver as melhores (e maiores) aventuras já vistas. Juntas ou sozinhas, nós queremos é viver! E compartilhar nossas experiências para que possamos inspirar cada vez mais, outras mulheres.



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