Another Ink in the Wall – A História da Tatuadora Mochileira

Another Ink in the Wall – A História da Tatuadora Mochileira

Todo mundo que é apaixonado por viagens como nós, já se pegou um dia sonhando em transformar o hobby em trabalho. Afinal, ter que comprimir toda essa vontade de pôr o pé na estrada em 30 dias de férias por ano mais alguns feriados prolongados parece nunca ser o suficiente… Nas minhas andanças pelo Couchsurfing das Minas conheci uma mina maravilhosa que conseguiu, de certo modo, transformar o amor por viagens em trabalho.

VEJA TAMBÉM VOCÊ SABE O QUE É COUCHSURFING?

A Jessica é uma mina de 24 anos, natural da Bahia, mas que atualmente “mora” no Espírito Santo. Ela é tatuadora, mas ao contrário da maioria dos profissionais dessa área, ela não tem um estúdio onde “você marca hora e ela te tatua”, o estúdio dela é o mundo. Ela viaja pelo Brasil de Couch e faz grana tatuando por onde ela passa. Fiquei encantada pelos desenhos dela, por seu traço fino e preciso e por seu estilo de vida, então eu resolvi que queria um pedacinho da arte dela na minha pele. E assim foi, entrei em contato pela página dela no Facebook, a Another ink in the Wall, e mandei uma mensagem dizendo que eu queria muito uma tatuagem nova. Ela estava vindo ao Rio mas a agenda já estava lotada, me garantiu que na próxima vinda ao Rio, me conseguiria um lugar na agenda. E assim foi, em Dezembro do ano passado, se não me engano, ela me mandou uma mensagem falando que viria ao Rio final de março/ início de abril e se eu ainda queria tatuar. Prontamente respondi que sim, quando ela me perguntou o que eu queria, disse que não sabia (sou a pessoa mais indecisa), mas que iria olhar o que ela tinha de desenhos disponíveis já prontos. Ai, que momento difícil, cada desenho maravilhoso (admito que o tempo entre ter escolhido o desenho e ido tatuar, quase mudei varias vezes a escolha). Mas me encantei com o desenho de uma mulher emergindo das águas, com seu cabelo crespo cheio de referencias ao mar (conchas, peixinhos, rabo de sereia). Era a minha cara, adoro/sou sereia, inclusive alguns amigos me chamam assim.

Desenho escolhido, me encontrei com a Jéssica numa agradável tarde de sexta, num dos muitos feriados que tivemos esse ano. Ela estava hospedada num simpático apê em Copacabana e a tattoo foi feita na sala, com o braço apoiado sobre a mesa. Mas tudo certinho, e tudo muito bem esterilizado, não se preocupem. Aproveitei à tarde que passamos juntas, enquanto eu era rabiscada, pra conversar um pouquinho com ela e contar pra outras minas que acompanham o blog e se amarram em tattoos e viagens, como é essa vida de tatuar pela estrada.

Raquel NECAM – Como começou essa junção de viagem e tatuagem? Você já viajava e começou a tatuar? Conta pra gente como começou essa experiência.

Jéssica Another Ink in The Wall – Há muito tempo eu já queria viajar… E em 2012 eu comecei a querer tatuar, mas eu nunca tinha dinheiro para comprar as coisas e aí acabou que eu só consegui comprar em 2014. Só que em 2014 eu parei de tatuar logo que eu comecei. Nessas pausas que eu dei eu viajei. Eu fiz uma travessia no Vale do Patinho de sete dias, outra travessia no litoral norte da Bahia, ao todo eu fiquei uns cinco dias também andando, meu pé ficou “só” de bolhas, tive que voltar pra casa e não consegui terminar o percurso de 13 dias. Assim, as coisas foram acontecendo. A primeira vez que eu viajei pra tatuar mesmo foi quando eu ainda era aprendiz, que foi numa viagem que eu fiz a Ilheus, que era um lugar que eu já conhecia, já conhecia a pessoa, e aí eu estava com as coisas de tatuagem e fiz tatuagens. Foi uma coisa que acabou coincidindo mesmo, eu não viajei para especificamente pra tatuar não. E depois disso, a primeira vez que eu fui especificamente para tatuar, em um lugar que eu não conhecia ninguém, foi em BH, em 2015. E a partir daí, eu não parei mais, até porque eu sempre acabava tendo que voltar pros lugares que eu tinha ido antes, e tinha mais gente querendo tatuar. Principalmente porque eu estava muito no inicio ainda, eu sempre pensei assim “Ah, eu sempre corro o risco de alguma tatuagem minha falhar, alguma coisa assim. Então eu vou em lugares em que eu possa me comprometer a voltar logo depois pra poder retocar o que tiver de retocar”. E aí eu fui fazendo as viagens, e as coisas foram acontecendo.

Raquel – E nessas viagens, desde o começo você já ficava de couch na casa das pessoas?

Jéssica: – Sim, acabou que algumas vezes eu já conhecia as pessoas pessoalmente, como em ilhéus, que eu acabei ficando na casa de uma amiga, e acabei morando na casa dela antes de eu começar a tatuar, no ano anterior. Depois eu fiquei em casas de pessoas que eu não conhecia pessoalmente, por meio de grupos e essas coisas assim. Mas sempre foi assim e a maioria era gente que eu não conhecia pessoalmente antes. Algumas vezes eu ficava na casa de pessoas que eu já havia conhecido durante as viagens mesmo. Isso é uma coisa muito legal, muito tranquilo.

Raquel – E você nunca passou nenhum perrengue não?

Jéssica: – Nunca tive nenhum problema não.

Raquel – Uma das questões que deixa as mulheres apreensivas de viajar dessa forma é a insegurança, elas não se sentem seguras. Você sempre se hospeda na casa de minas ou de rapazes também?

Jéssica: – Eu já me hospedei em casas que tinham homens, mas não na casa de homens especificamente, a não ser pessoas que eu já conhecia anteriormente. Pessoas que não conheço ou só conheço pela internet, só de mulheres mesmo. E acaba que eu atraio mais mulheres, e nem foi uma coisa de “eu só vou fazer isso”, não foi uma escolha assim. Foi uma coisa que acabou sendo desse jeito, sem eu precisar escolher.

Raquel – E nessa saga de viajar e tatuar, você viaja muito pelo Brasil,  já foi pra fora?

Jéssica: – Não, ainda não. A primeira será na semana que vem.

Raquel – E pelo Brasil, você já foi a todos os estados? Tem lugar que ainda falta conhecer?

Jéssica: – Nossa, tem tanto lugar pra conhecer ainda! Porque assim, como eu viajo para tatuar, eu vou nos lugares em que eu tenho pessoas para tatuar. Acaba que quanto mais eu vou num lugar, mais gente tem pra tatuar naquele lugar! Acaba que eu vou muito nos lugares que eu já fui e pouco a lugares novos. Por exemplo, em BH eu já fui cinco vezes, em São Paulo eu devo ter ido umas cinco também, no Rio já vim três, tudo isso em um ano. Ano passado eu perdi as contas de quantas viagens eu fiz mas foram aproximadamente vinte. Só que assim, a maioria é para lugares repetidos. Eu fui para poucos lugares novos, mas mesmo assim, nos lugares novos que eu fui, fui só uma vez, não deu pra repetir.

Raquel – E você consegue ter tempo para conhecer os lugares ou fica só tatuando?

Jéssica: – Então, depende, assim, o objetivo principal da viagem é tatuar porque eu não tatuo em “casa”. Eu não tenho uma casa, a minha casa eu não moro nela. Então tudo que eu faço, toda minha renda do mês é por conta das viagens. Então eu não passeio muito, eu acabo dividindo as coisas pra conhecer as coisas em viagens ao longo do ano, ao invés de conhecer tudo de uma vez. Então, por exemplo, aqui no Rio eu já vim três vezes e cada vez que eu venho eu vou em algum lugar novo que eu tenho vontade e algum lugar que eu gostei da ultima vez e vou de novo, mas também não conheço tudo de uma vez.

Raquel – E você sofreu muita pressão das pessoas por conta do que tá fazendo, essa coisa de cair na estrada? As pessoas estranharam muito no começo, acharam muita loucura?

Jéssica: – As pessoas, a principio elas acham uma coisa estranha mas depois elas começam a achar uma coisa muito legal. A coisa mais estranha é explicar pras pessoas que eu não moro em um lugar especifico, mas eu passo tempo morando em vários lugares. Então pra mim é muito complicado fazer coisas que as pessoas fazem cotidianamente, por exemplo, ir à academia. Eu teria que fazer coisas semanais, é muito difícil fechar pacotes por muito tempo. Mas as pessoas começam a achar muito interessante até. Até porque eu não fico viajando cem por cento do tempo, eu viajo 10 dias por mês e às vezes eu emendo duas viagens, ou três ou quatro… Então depende, essa viagem agora, por exemplo, que é a ultima no Brasil, eu tô viajando desde o dia dezoito de março e aí ela vai até o dia 20 (de abril). Vai ser tipo um mês viajando. Lá na Irlanda, como vou fazer intercambio, não vou poder ficar viajando tanto, só os finais de semana. Vão ser seis meses de aula e dois de férias, vou conseguir viajar com frequência mesmo nos dois últimos meses.

Raquel – Sobre seu trabalho, saiu há algum tempo atrás uma matéria sobre tatuagem em pele negras, afinal ainda há um estigma sobre isso, muita gente acha que é ruim tatuar pele escura, os próprios tatuadores acabam buscando peles mais claras pra fazer portfólio. E você era citada nessa matéria como referência em tatuagens em peles negras, como é isso pra você? Foi sua intenção se especializar, de alguma forma, em tatuar pele negra?

Jéssica: – Então, quando eu estava morando na Bahia, a cidade que eu moro, Amargosa, é no Recôncavo da Bahia, basicamente lá é o lugar com a maior concentração de negros fora da África. Lá não tinha como não ser assim. Pra mim foi uma coisa muito normal, não faz uma diferença. Eu sempre ouvia pessoas falando, tatuadores e pessoas aleatórias, “Ai, tal pessoa tem a pele tão branca, tão linda, parece uma tela”. Isso sempre me incomodou e eu nunca entendi o porquê. Aí quando eu estava perto de pessoas com a pele mais escura sempre ficava com aquela coisa, ninguém aqui parece uma tela mas na sua pele até que fica um pouquinho menos pior. Isso é uma coisa muito estranha porque tatuagem é pra ficar na pele, não é pra ser uma tela. Nunca foi a intenção fazer parecer ser uma tela. Então começou a partir disso, até lá mesmo já chegaram a me falar que tatuar pessoas negras não iria ser bom pra portfólio porque a tatuagem não fica bonita. Eu tinha que tatuar pessoas negras, ate porque lá a maioria é negro, mas que era pra eu aproveitar as oportunidades quando aparecesse uma pessoa branca pra poder fazer portfólio. Então tipo, a pessoa estava me dizendo, pra ganhar dinheiro com pessoas negras e postar foto das pessoas brancas. Isso pra mim não faz sentido porque  pelo menos eu não gosto de comprar coisas que as pessoas estão se sentindo meio que obrigadas a me vender. Então também não faz sentido alguém querer tatuar com pessoas que só postam fotos de pessoas brancas e não postam nenhum exemplo de pessoas negras.

Raquel – E sobre ser mulher tatuadora, como é? Eu tenho mais 5 tatuagens e fiz todas com uma mina, por achar importante dar visibilidade as mulheres em todos os espaços em que me é possível e o campo da tatuagem, me parece ser um campo ainda dominado pelos homens, apesar de eu achar que está mudando e temos visto muitas mulheres despontando na área.

Jéssica: – Eu costumo dizer que eu vivo numa bolha, porque meio que tudo que eu entro em contato são coisas que passam por muitos filtro e eu consigo manter esses filtros. Eu passo a maior parte do tempo dentro de uma matrix em que eu não sou obrigada a ficar olhando a realidade, então a maior parte das pessoas que conheço que tatuam são mulheres, a maior parte das pessoas que admiro que tatuam são mulheres, as pessoas que atendo também são mulheres. Acabou sendo muito comum pra mim, antes de eu começar a tatuar eu não tinha quase que nenhuma ligação com o mundo da tatuagem, então eu nunca vivi de verdade o outro lado, que é o de ser somente rodeada por homens. Então eu realmente não sei como é esse outro lado. Eu sempre preferi ficar em estúdios de mulheres, por exemplo, a menina que me hospedou em ilhéus, ela começou a tatuar na mesma época que eu, um pouquinho antes, e agora ela tem estúdio e eu fiquei no estúdio dela. Acabou que eu consegui uma forma de me blindar dessas coisas e a maior parte do tempo fingir que elas não existem. Acabou que meu contato com homens desse meio é mais limitado, eu posso selecionar melhor. Eu tenho mais autonomia pra me manter longe. Pra mim é muito estranho quando eu vejo alguma notícia ou algum relato sobre o machismo nessa área. É uma coisa que eu não vivo diretamente. Às vezes algumas meninas, principalmente com piercings, relatando assédio que os caras fizeram ou quando elas dependem diretamente do estúdio de um cara e eles as tratam mal. Eu já vi muita coisa assim, é algo realmente pesado.

Raquel – E antes de tatuar, você fazia o que?

Jéssica: – Eu fiz 4 anos de psicologia, eu larguei em 2013. Larguei sem saber o que eu iria fazer depois, não estava planejado. E nesse meio tempo eu fiquei meio perdida. E enfim eu consegui comprar os materiais de tatuagens, desde 2012 eu estava tentando. É estranho porque parece que em 2012 tudo deu errado pra isso, eu tentei comprar uma máquina e o cara simplesmente me deu calote. Outra vez eu fiz uma encomenda de desenho e também me deram calote. Em 2014 tudo começou a se juntar certinho. Aí eu parei de tatuar, antes de começar de verdade eu parei, eu não conseguia sequer olhar para os materiais de tatuagem. Era um misto de frustração com perfeccionismo e isso trava a pessoa. A gente não sabe delimitar o que é perfeccionismo e o que é auto sabotagem. E isso já havia acontecido com o desenho, eu parei de desenhar por três anos por causa disso. E aí eu comecei mesmo, mesmo a tatuar em 2015.

E aí, minas que acompanham o blog, gostaram de conhecer um pouco dessa mina tão jovem e que já está há tanto tempo com o pé na estrada, transformando isso num estilo de vida? O que eu pude perceber é que, como tudo na vida, nada é fácil, mas pode ser bem gratificante essa vida nômade. Será que algum dia a gente toma coragem e se joga nesse mundão também? Para quem ficou curioso em saber como ficou a minha tatto, dá só uma olhada:




Comentários

Comentários



4 thoughts on “Another Ink in the Wall – A História da Tatuadora Mochileira”

    • Obrigada, Natália. Todo mundo do pergunta se a idéia foi minha da tatuagem, rs. É incrivelmente parecida comigo, acho que eu nunca conseguiria pensar em algo assim. Coisas que a gente não explica.

    • Que bom que curtiu, Talita. Eu adorei a tatuagem, a Jessica, a entrevista… Bom saber que os leitores curtiram também.

O que achou desse post?


%d blogueiros gostam disto: