A primeira vez que fui tão longe sozinha

A primeira vez que fui tão longe sozinha

No início do Na Estrada com as Minas eu confesso que não imaginava que chegaria tão longe, tanto é que tivemos uma longa pausa antes de começar de verdade. Eu, uma garota simples em todos os sentidos não percebia o potencial desse projeto. Ingenuidade e despreparo foram os meus grandes desafios nessa jornada até aqui.

Quando me tornei mãe, decidi me dedicar full time e eu realmente sou muito boa nesse lance de ser mãe, porém a maternidade em um determinado momento começar a tomar conta de cada segundo dos seus dias seja isso positivo ou negativo. Pelo lado positivo, você se torna alguém muito mais forte, convicto, você tem um propósito e se torna imbatível, no entanto, por outro lado é algo que pode vir a ser muito tóxico. Não que a maternidade seja ruim em si, mas a romantização da mesma é muito perigosa para as mulheres e só damos conta do quão submersa estamos no “mundo maternidade” quando não conseguimos imaginar dar um passo sequer sem estar na companhia das crias.

Uma das maiores dificuldades que mulheres que se tornam mães enfrentam sem dúvidas é conseguir se desvincular do seu filho – e eu não estou dizendo que mães deveriam deixar de amar seus meninos, longe de mim, pois eu tenho uma filha que amo demais, porém – é muito importante que aprendamos a respeitar a nossa individualidade enquanto indivíduos para que consigamos entender a individualidade do outro que está tão próximo. As crianças nascem e vivem por um determinado período totalmente dependentes do responsável que lhes dá segurança, apoio, afeto, entretanto, essa dependência tem prazo de validade e nós precisamos reconhecer quem nos tornamos quando viramos mães, para que quando as crianças começarem a se desenvolver, começarem a ser mais livres, nós não fiquemos tão dependentes.

E foi com essa percepção, que eu entendi que precisava “desplugar” um pouco da minha pequena criança. Não tem sido um processo fácil, muito pelo contrário, o caminho é árduo, doloroso, porém libertador.

Tudo começou quando eu “abri mão” de estar 100% do tempo com ela, colocando-a “tão cedo” na creche. Quem me visse no inicio do ano passado não reconheceria quem eu sou agora. Insegura, desconfiada, temerosa, “entregar” minha filha nas mãos de desconhecidos era algo absurdo para mim e imagino que seja para outras mulheres que assim como eu vivem a maternidade de forma tão intensa. E nesse momento, eu comecei a ter um pouquinho mais de tempo para fazer outras coisas que não: trocar fralda, amamentar, dar banho e aí eu fiquei desesperada e pensei: “meu Deus do céu, o que eu vou fazer agora?” eu não sabia! E me sentia tão perdida que era frustrante, não conseguia organizar minha rotina de forma produtiva. Então o tempo foi passando, mais coisas acontecendo, eu voltei a estudar, a trabalhar, ela “dormiu fora” pela primeira vez e eu acordei desesperada procurando-a na cama até pelo menos a terceira vez em que ela dormiu longe de mim. Ela parou de mamar e aos poucos fomos aprendendo novas formas de socializar, de conviver, formas que fossem saudáveis para ambas, mas ainda assim a mente… Ela não conseguia se desligar.

Então ir tão longe pela primeira vez sozinha foi uma das experiências que mais marcaram a minha maternidade.

Eu estava amadurecendo a ideia de viajar sozinha há muito tempo, mas o meu cérebro demorou a assimilar essa decisão por uma série de fatores. “Com quem a bebê ficaria?”, “Ela vai ficar bem longe de mim?”, “E se alguma coisa acontecer com ela? Será minha culpa”. Esses e outros questionamentos rondaram minha mente todo o tempo e foi um exercício dos “hards” pra conseguir driblar cada um desses obstáculos. E quando eu me decidi, eu tinha a certeza que seria a melhor escolha, essa seria mais uma etapa – uma das mais difíceis – do “desmame” – risos. Então eu fui, comprei as passagens rumo à São Paulo, arrumei a mochila de 50L, dei um beijinho nela quando saí e segurei o coração para ele não pular pela minha boca. Eu fui, com a cara e a coragem passar um final de semana longe do meu bem mais precioso.

E pela primeira vez me permiti ser imprudente e achei que tinha enlouquecido por ter me permitido. Esqueci-me de anotar as principais coordenadas de locomoção e localização. Permiti que meu celular descarregasse, andei por ruas que não conseguia obviamente perdida, temendo que meu sotaque me lançasse direto em uma terrível armadilha, me permiti economizar, me forcei a gastar o planejado – ou quase… E fiz o meu trabalho muito mais focada.

E morri de saudade da minha neném…

Se eu a tivesse levado provavelmente teria sido uma viagem completamente diferente, como foram tantas outras. Eu me organizaria melhor, pouparia menos, estaria sempre alerta. E apesar de ter acontecido tudo diferente do que estou acostumada foi igualmente maravilhoso. Permitir-me viver essas “aventuras” de forma tão despreocupada me trouxe uma nova perspectiva. Existe vida pós-maternidade e ela não pode ser ignorada. Pela primeira vez eu não senti medo por ela, de acontecer algo com ela, eu senti medo por mim e isso me fez perceber o quanto eu me negligenciava, o quanto eu estou vulnerável à má sorte por estar sempre tão somente preocupada com outra pessoa que não eu.

Dessa história toda eu posso afirmar, que a primeira vez que fui tão longe sozinha, me modificou para sempre.

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Cami Santos, mãe da Clara, carioca com alma de cigana, ariana dos pés a cabeça, 22 anos. Estudante de Jornalismo, feminista negra interseccional, escritora e apaixonada por moda, viagens, fotografia e música.



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