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Uma aventura de autoconhecimento e desapego na Alemanha

O descasular da borboleta: uma aventura de autoconhecimento e desapego de uma tocantinense e seu cachorro vivendo na Alemanha

Completei 10 anos longe de casa. Já são 7 longe de toda a minha família. Desde que saí de Arapoema, minha cidade natal, habitei umas tantas 15 casas, em 3 estados de Brasil, indo sozinha atrás de oportunidades de estudo e de trabalho. Meu atual lar é na Alemanha, de onde quase 10 mil km me separam dos primeiros ventos de julho com cheiro de praia, que noticiam a chegada da estação simbólica do verão no Tocantins. Essa é a conta de alguém que leva Kerouac e Thoreau na mochila, mas também são os números de uma vida controversamente muito estável. Até agora.



Vou profundo em mim, na missão da autodescoberta, no caminho do descasular da borboleta, e nesse processo de despertar percebo que no passado sempre me seduziram ideias de estabilidade e segurança. Sempre planejei e vivi a ansiedade de que as coisas pudessem fugir do que eu esperava. Sempre refleti e me preocupei muito. Eu usei a balança em todas as oportunidades. Sequer chorei, de medo ou de dor.

E que medo de errar! Eu fui aquela prima chata das conversas da família no natal: responsável, independente, passou em um concurso público aos 18 e em outro aos 20, relacionamento de 6 anos, formou em universidade pública, poupança. Sustentando o arquétipo da irmã mais velha, que planeja o roteiro da viagem, prepara o lanche e a playlist, minha família nunca questionou as minhas escolhas, deu palpite e nem bronca. Meu pai me pede conselhos.
Eu, boba, velejei um tempão danado pelo caminho mais seguro, naveguei pela calmaria da oportunidade mais racional, cruzei a ponte segurando o corrimão da certeza absoluta, até perceber, não com pouco sofrimento e carregando o peso do velho Saturno nos ombros, que o único jeito de viver a minha própria verdade é mergulhar no oceano mais profundo, desconhecido, imprevisível e insensato: o chamado do coração.
No encontro inevitável com o meu eu, em constante construção, percebo que a forma que eu conduzia a minha vida com base em pensamentos de segurança não respeitava as coisas nas quais eu acredito e que são verdadeiramente importantes pra mim; e aprendo, humildemente, que todas as ideias de segurança têm origem no medo de perdermos uma falsa imagem que construímos a respeito de nós mesmos.

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Desfazer-me de todas as armadilhas do ego que criam essas representações esse tornou uma missão não planejada por mim, mas um caminho que foi se desenhando à minha frente, com a ajuda da intuição e da mulher selvagem que me habita, esta soterrada sob as camadas mais profundas da minha psique.
Desde então, o universo me guia no maior exercício de desapego e de renúncia ao que não me preenche e ao que me afasta da minha verdadeira essência. Eu não sou um emprego concursado, que me paga um bom salário mas não me faz sentir que aproveita a minha criatividade, uma das qualidades que mais valorizo em mim. Chutei o balde após 4 anos.
Eu não sou um apartamento que eu adoro, de 102 metros quadrados, em um dos prédios mais bonitos da cidade. Entreguei as chaves na imobiliária. Eu não sou as roupas que tenho, móveis coloridos, maquiagens ou bibelôs na parede. Vendi e doei.
Enfiei minha vida em duas malas pequenas, 4 pares de calçados e meia dúzia de livros dentro, botei meu cachorro num avião e atravessei o Atlântico, com uma poupancinha mirrada, em direção a redescobrir, com os pés nas estrelas ao invés do chão, todas as dimensões do meu potencial interior e da minha energia vital.
Todos os dias durante os 5 meses pra preparar todos os documentos Maizena, meu fiel escudeiro de 4 patas; no momento da entrega de cada móvel a um comprador diferente; naquele dia de céu azul lindo, quando deixei na área comum do prédio as plantas cheias de significados para mim; quando eu saquei o dinheiro de uma vida inteira de poucos 24 anos, coloquei em um evelope e escondi dentro do sutiã.
Em todos os momentos desse processo, eu tive medo e tive que vencer o medo. E não poderia ter sido diferente. O medo é o casulo da borboleta: precisa ser forte o bastante para proteger a lagarta dos inimigos externos que tentam devorá-la, mas que se forte demais, a borboleta não consegue quebrá-lo de dentro pra fora, e morre aprisionada, sem ter voado.
A mudança pra um país distante, com uma cultura desconhecida e uma língua que não falo, foi apenas um dos desafios que a vida me apresentou e me apresentará, para que longe da sombra de quem eu acredito ser, de fato poder me converter em algo.
O medo é uma parte de mim e sempre vai me acompanhar, dizendo as coisas tolas que só mesmo um personagem bobalhão como ele poderia dizer: “subir nessa árvore poderia ser perigoso!”, “essa comida desconhecida poderia te dar uma alergia”, “nem todas as pessoas são boas”, “essa vaga de emprego terá inscritos mais capacitados que você“. E eu sempre vou pedir pra ele ir tomar um arzinho lá fora, que tá um dia lindo que só, fechar a porta, mostrar o dedo do meio e rindo dele, dar uma cambalhota.
E enquanto ele me olha pela janela, com aquela cara de desgosto, eu subo na árvore e me penduro como a Líllian de 11 anos – aquela que tem um dente quebrado por ter brigado com um menino na rua -, como coisas que não sei nome, ingrediente nem procedência, bato um papo em alemão e mímica com desconhecidos e me inscrevo pra vaga de emprego que não é pra mim. Aqui, desafio-me diariamente a não estar acostumada. Me proponho a não querer estar segura. Eu não quero mais ter razão, não quero mais ter certeza. E nem juízo!
Quero aprender a andar sem as duas mãos grudadas ao guidão da bicicleta, e tentando, cair e chorar. Quero descobrir, errando, ao que vim e ao que estou, longe do conforto de precisar ser alguém. Quero descobrir minhas habilidades, redescobrir minha sensibilidade, conectar com a natureza e suas manifestações, colher e provar o sabor dos tomates semeados por mim e dançar todo o meu jeito engraçado em público, movendo até os dedões do pé. Eu quero retornar a mim mesma e ser um coração selvagem com pressa de viver, com esse jeito de deixar sempre de lado a certeza e arriscar tudo de novo, com paixão.

Tenho visto por aí que essa parte do texto se dedica ao surgimento de uma dica, a uma frase com o efeito de tentar convencer alguém de alguma coisa, a uma revelação capaz de mudar sua vida para todo o sempre e amém. Eu não me atreveria, mas que pra aproveitar a oportunidade, deixo só uma pergunta, que de outras maneiras, talvez já tenha reverberado no seu íntimo:

Quão resistente tem sido o seu casulo?
Eu e o Maizena, meu cachorro vira-lata resgatado das ruas brasileiras, temos uma conta no Instagram: www.instagram.com/aslillians.
Lá, compartilhamos fotos de nossas aventuras longe de casa e todo esse nosso amor absurdo um pelo outro.




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3 COMMENTS

  • Vanesca

    Parabéns Lillian pelas suas descobertas, tenho orgulho da mulher que vc se tornou e me honra a alma ter te conhecido! Voe garota! Voe porque esse céu azul que vc gosta de contemplar é todo seu! Toda paz pra vc e maizena

  • Lillian

    Obrigada, Vanesca! É uma alegria imensa pra mim receber esse carinho de você. Todo amor do mundo pra você e sua família linda. Voemoss que o mundão é nosso. ♥️

  • Flavinha muleke doido

    Hj na aula a Leislane me falou do seu texto, toda orgulhosa e eu não podia deixar de ver. Muito lindo e profundo, me identifiquei bastante. Uma experiência única de tentar encontrar a si mesmo em outros lados. Vivi exatamente isso ao sair do país e eu não tinha um amigo de 4 patas do lado kkk Apenas a vontade no coração de realmente correr atrás dos meus objetivos. Amei. Beijos.

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