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"Viajar é Perder" – reflexão sobre a nova perspectiva que a viagem nos traz – por Milena Pereira

Hoje faz 1 mês que embarquei para a viagem mais transformadora da minha vida. Não desmerecendo as outras, que foram incríveis também, mas essa me deu uma sacudida e tanto. Eu fui só e voltei acompanhada de tanta gente, tanto conhecimento, tantas histórias e experiências… Tudo que vivi por lá me levou a concluir algo um tanto polêmico: Amigos, viajar é perder.

A gente começa perdendo um monte de roupa nova maravilhosa, festinhas, bons drinks, promoções, jantares… tudo para conseguir juntar umas moedinhas a mais para partir. Essas perdas, apesar de consideradas pequenas, são essenciais; sem elas não dá para sair de casa.

Depois a gente perde tempo. Muito tempo mesmo. Toda hora livre da vida é dedicada ao planejamento de roteiros, leitura de blogs e artigos, estudo de mapa, busca dos melhores lugares para se hospedar e comer.

Em seguida a gente perde o sono – afinal, quanto mais próxima a viagem, mais distantes ficam as boas noites de descanso… A cabeça não para, os detalhes finais gritam com urgência, tudo parece precisar ser checado de novo e de novo e de novo… Quando o olho fecha, já está na hora de acordar. Normal…

O próximo passo é perder o medo. Não é que ele se perca de vez, não é bem isso. O medo sempre está com a gente, e é importante que ele esteja mesmo. Ele é nosso sinal de alerta, o sentimento responsável por nos lembrar que somos humanos, que há limites, que é necessário uma maior atenção no ponto x e y do caminho. Então, sim, reconheçamos: o medo é importante. O que acontece quando viajamos é que ele perde a “cara de inimigo”, sabe? O medo continua com a gente, mas agora como amigo – daqueles que valorizamos, compreendemos e respeitamos. Ele não nos engessa mais, a gente não se diminui por ele, apenas damos as mãos em parceria para seguir seguro e leve pelos caminhos que o coração pedir.

“Verdades absolutas” são as perdas seguintes. Ao longo da vida a gente ouve muitas coisas sobre outras culturas. Em geral acabamos concordando com essas coisas – por total falta de algo que nos cultive discordância – e dando a elas um selo de verdade que nem ao menos sabemos de onde vem. Acho que viagens são sempre uma ótima chance de rever essas “verdades”. Só indo para outros lugares você entende um pouco melhor um hábito ou uma crença local, o motivo de um comportamento e o estranhamento para com outro. E é nesse processo de deslocamento de perspectiva que muitas concepções que temos tão solidamente construídas em nós se flexibilizam, se ressignificam e até mesmo se destroem. E isso é maravilhoso, ao meu ver.

Seguimos perdendo algo bem estrutural: o receio de arriscar. Todas as perdas anteriores nos fazem perceber que sem risco não há ganho. Isso realmente fica bem claro quando viajamos. Sem se lançar ao novo, nada acontece; sem se desprender da margem, você não atravessa nenhum mar. E sim, isso é bonito como metáfora, mas sugiro que seja lido de forma literal mesmo. Em viagens a gente aprende que é preciso arriscar o primeiro passo, mesmo inseguro; que é preciso ousar falar em outro idioma para fazer um pedido em restaurante (porque mudo você morre de fome, né?); que é preciso lançar um “oi” aleatório para fazer amizade com um desconhecido; que é preciso sair da caixa para inovar, sair da rua famosa para desbravar uma experiência mais local; sair da zona de conforto para ir além.

Ir além, como eu disse, envolve muitas, muitas perdas, incluindo a de nós mesmos. A gente se perde tanto que muda. Muda a nossa forma de pensar, de se relacionar, de aprender, de produzir. Muda nossa consciência, nossa percepção de limite, de possibilidade, de autoestima, de afeto, de presença. Mudam nossas necessidades, nossos projetos, nossos horizontes, nossa forma de caminhar e de compreender os passos dados.

É sobre a perda que edificamos os ganhos mais essenciais. E esses não têm preço e nem cabem em conceitos cartesianos; são tão fluidos que nos escapam aos olhos, que não se enquadram em currículos e muito menos nessas esforçadas palavras. Quem viaja é passarinho: perde bens, perde tempo, perde sono, perde medo, perde certeza, perde amarras, perde o chão, o receio de voar, se perde e….por fim, se encontra, em um mundo muito mais plural do que se poderia supôr, muito mais bonito, inquieto e interessante do que as pessoas ou os livros dizem. Que fique registrado meu conselho final: Para ganhar, amigos, só é preciso saber perder. Lancemos os dados. 😉

Obrigada!
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